Dra. Ana Neto - Nutricionista SPW Portugal

Ana Neto é nutricionista e membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas. Terminou a licenciatura em Ciências da Nutrição na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto em 2014. Após isso, realizou o estágio de acesso à Ordem dos Nutricionistas no Instituto Português de Oncologia do Porto. Em 2016, mudou-se para o Reino Unido para explorar a carreira de nutrição clínica no ramo hospitalar e já trabalhou em três hospitais diferentes no Sul de Inglaterra. Desde 2018, trabalha num hospital universitário e dedica-se exclusivamente à área da pediatria, tendo formação em nutrição pediátrica pela Universidade de Plymouth e diversas formações profissionais complementares. A sua prática clínica foca-se nas áreas do comportamento alimentar na infância e na adolescência, doenças neurológicas, fibrose quística e doenças renais.

Para qualquer esclarecimento ou ajuda com a nossa nutricionista podem entrar em contato através do email: anajrebelo@gmail.com

 A obesidade e as suas complicações são as principais causas de morbilidade e mortalidade na SPW. Assim é muito importante uma dieta controlada e especializada. Existem duas fases distintas no que diz respeito à nutrição na SPW.

Primeira fase

Nos primeiros meses de vida há uma diminuição da ingestão alimentar devido à hipotonia e durante a qual o bebé pode necessitar de alimentação por sonda. Nestes primeiros tempos, é importante estabelecer um horário para alimentação estruturado uma vez que o bebé pode não acordar ou chorar com fome. Esta é uma fase em que uma nutrição adequada e rica em gordura é crucial para o crescimento e o desenvolvimento cerebral do bebé. Não é, de todo, aconselhado que haja restrição calórica nesta fase, sendo que alguns bebés com SPW precisam, inclusive, de algumas calorias adicionais.

Mal se inicia a diversificação alimentar é essencial tentar estabelecer hábitos saudáveis. Uma dieta completa e adequada inclui frutas e hortícolas, fontes de proteína e gorduras saudáveis.

Mesmo antes do início da fase da hiperfagia, a recomendação é optar por alimentos com elevada densidade nutricional (muitos nutrientes em poucas calorias). Uma vez que, eventualmente, a criança vai necessitar de uma ingestão calórica reduzida, é importante que se habitue desde cedo a alimentos que podem satisfazer as necessidades em vitaminas e minerais com menores quantidades, como é o caso da fruta e dos vegetais.

Estes alimentos são benéficos para a saúde e podem ser consumidos em maiores quantidades, ajudando a satisfazer a sensação de fome sem ultrapassar as necessidades energéticas reduzidas. Recomenda-se que estes hábitos sejam adotados por toda a família de modo a facilitar a preparação das refeições e a servir de apoio e exemplo à criança numa jornada que nem sempre será fácil. É importante, contudo, ensinar desde cedo que corpos diferentes têm necessidades diferentes para que seja mais fácil, no futuro, entender a inevitável diferença de porções.

Segunda fase – Hipergafia

A hiperfagia, ou a ingestão excessiva de alimentos com sensação de saciedade alterada, é um dos aspetos mais falados no SPW. No entanto, é também um dos menos entendidos. Algo que pode ajudar a compreender é pensar que, devido às alterações no hipotálamo, os mecanismos de saciedade estão alterados e não há nada a comunicar ao cérebro que se “está cheio”. Assim, o cérebro continua a comunicar ao estômago que “está esfomeado” e, dessa forma, a necessidade de comer torna-se mais importante que todas as outras. A hiperfagia pode ocorrer em idades e intensidades diferentes.

Geralmente, por volta dos três anos de idade, as crianças com SPW começam a demonstrar uma preocupação excessiva com a comida. Inicialmente, pode notar-se apenas aumento de peso sem um aumento de apetite ou da ingestão alimentar mas é, geralmente, seguido por esse tal aumento de apetite e do interesse na comida. Pode ser complicado distinguir comportamentos típicos desta idade e hiperfagia e a terapia ocupacional pode ajudar neste aspeto.

Estabelecer um processo comportamental mais rígido e limitado a alguém com hiperfagia pode ser muito desafiante. Contudo, sem este controlo alimentar e nutricional, a obsessão pela comida aumenta muito a probabilidade de desenvolver obesidade e, consequentemente, outras complicações associadas. É importante diminuir a disponibilidade e exposição alimentar da criança.

Como todas as crianças, a criança com SPW pode ser uma picky eater e ter preferências e aversões alimentares fortes. A educação alimentar deve ter um papel vital na educação da criança (e da família e amigos). É muito mais fácil não introduzir certos alimentos do que depois ter que removê-los da dieta mais tarde.              

Por exemplo, deve-se implementar desde cedo uma rotina de três refeições principais com lanches pequenos (por exemplo, uma peça de fruta ou palitos de vegetais). Doces, chocolates e bolos não devem ser oferecidos de todo. Além disso, não se deve habituar a criança a repetir a refeição e não colocar a travessa/panela  na mesa pode ajudar. Os pais ou cuidadores são os exemplos mais importantes para as crianças pelo que nunca é demais referir que estes comportamentos são mais facilmente adotados se forem seguidos por todo o agregado familiar.

Uma vez que a composição corporal de crianças com SPW é diferente, com maior rácio de massa gorda para massa magra, é surpreendente fácil para alguém com SPW aumentar de peso em períodos de tempo muito curtos. Estas menores percentagens de massa magra podem afetar negativamente a taxa metabólica de repouso e ainda tornar a prática de exercício físico mais difícil.

Uma pessoa com SPW precisa de manter uma dieta equilibrada, hipocalórica e hábitos de exercício físico para o resto da vida. A altura, peso e IMC devem ser monitorizados regularmente.